O trabalho com videoanimação em sala de aula: múltiplos olhares

ISBN: 978-85-7993-750-7

Autor/Organizadores: Helena Maria Ferreira; Jaciluz Dias; Marco Antonio Villarta-Neder

APRESENTAÇÃO

Helena Maria Ferreira

Jaciluz Dias

Marco Antonio Villarta-Neder

Trabalhar (com) a lingua(gem) no âmbito da formação de professores é uma responsabilidade e uma construção. A concepção que abraçamos e que tem direcionado nosso trabalho é a de que essa construção seja um fazer conjunto, entre os vários sujeitos envolvidos.

A identificação e – podemos dizer – o encantamento com Projeto Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), gerido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes/MEC) e coordenado, em âmbito local, pelas Instituições de Ensino Superior (IES), em conjunto com a rede pública de Educação Básica, advém da possibilidade de trabalhar em uma dimensão que contempla essa concepção.

No caso do Pibid Letras, na área de Português, vimos, desde a sua implantação na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em 2011, pautando nossas ações por uma dinâmica, para todos os sujeitos envolvidos (coordenação, bolsistas, professor supervisor), de uma relação indissociável entre teoria e prática, entre as dimensões da pesquisa e do ensino.

Convictos somos de que não faz sentido conceber-se uma sala de aula que não seja o mundo concreto dos estudantes da Educação Básica, dos professores, dos professores em formação, de nós pesquisadores e docentes na Universidade pública. Nesse mundo, que dialoga com o mundo exterior em um diálogo respeitoso e mutuamente constitutivo, a língua e as linguagens são uma parte importante e privilegiada de trabalho, seja como nosso objeto específico de atuação, seja como ingrediente de outros saberes com os quais e por meio dos quais nos (re)conhecemos na existência, em sociedade, sob uma dimensão epistêmica e ética.

Este livro representa um momento dessa construção, já que estamos imersos em uma rede de culturas e de práticas socioculturais e tecnológicas que se constituem pela inter-relação, rapidez e por múltiplas possibilidades de interação entre sujeitos, entre saberes e, enfim, entre percepções desses sujeitos sobre si mesmos e sobre os saberes de cuja elaboração/produção, circulação e recepção participam. Um mundo concreto de muitas semioses integradas em acontecimentos, em atos de linguagem nos quais tais sujeitos marcam sua presença na sociedade em que vivem.

Nesse viver multissemiótico, pluricultural e cada vez mais sofisticadamente tecnológico, elegemos um gênero discursivo que entendemos estar no cotidiano de todos esses sujeitos envolvidos na vivência da sala de aula: a videoanimação.

Consideramos que os gêneros do discurso são mais do que estruturas das línguas e das linguagens. Tomando-os como necessariamente práticas de linguagem e práticas sociais, nossa abordagem no Pibid foi a de interligar o estudo teórico, o interesse analítico a partir da experiência de espectadores no mundo concreto e, finalmente, o horizonte sociocultural dos estudantes da Educação Básica.

O livro que temos, agora, a satisfação de apresentar, consiste na culminância desse trabalho de estudo, discussão e vivência do gênero videoanimação, tendo sido pensado enquanto oportunidades de prática, nas salas de aula, de ensino e de aprendizagem de língua portuguesa. São 21 capítulos, cada um deles analisando videoanimações, sob vários enfoques teóricos, tendo em vista perspectivas de trabalho didático-pedagógico.

O leitor para quem esses textos foram destinados são os professores da Educação Básica e os professores em formação no Curso de Licenciatura em Letras.

Qual é a relevância de se trabalhar com gêneros audiovisuais, debruçando-se sobre sua configuração multissemiótica? Se pensamos na vida cotidiana, vivemos com eles, tropeçamos neles, nas telas dos smartphones, nas TV, nos computadores. Nas nossas escolas, apresentam-se, como tantos outros gêneros discursivos, como convites a nosso exercício interpretativo, na direção da formação constante de um leitor que se saiba cada vez mais presente pelo que vê no mundo e pela maneira que se vê olhando para si e para os outros.

Essa atividade interpretativa, muitas vezes, limita-se a uma inquisição burocrática da estrutura formal do texto escrito. Em qualquer linguagem, mas mais intensamente nesse caldeirão fervilhante de várias linguagens em diálogo em um contexto multissemiótico, tais atos interpretativos podem e devem ser concebidos mais amplamente.

A visão de Pierre Levy, que tem se dedicado a refletir sobre as características de nossas culturas e de nossas vidas nessa dimensão inter-relacional, em temas como cibercultura, mundo digital e sociedade digital, pode nos ajudar nesse caminho. Em uma conferência ministrada no Brasil em 2009, ele diz: Escutar, olhar, ler, voltam finalmente a se construir. Na abertura em direção ao esforço de significação que vem de outro, trabalhando, atravessando, amassando, decupando o texto, incorporando-o a nós, destruindo-o, nós contribuímos para erigir a paisagem de sentido que nos habita. Confiamos, por vezes, alguns fragmentos do texto aos conjuntos de signos que se movimentam em nós. Estes ensinamentos, estas relíquias, estes fetiches ou esses oráculos não têm nada a ver com as intenções do autor nem com a unidade semântica viva do texto. Eles, contribuem, porém, para criar e recriar o mundo de significações que nós somos (LÉVY, 2009, p. 1).

A partir dessa percepção, podemos nos lembrar de que o que vemos numa tela é uma extensão do que vemos no mundo, como cenas. Olhamos uns para os outros como signos imagéticos, sonoros, corporificando memórias, expectativas, compreensões, esperanças, frustrações.

A contribuição que essa visão permite para a formação continuada de professores que têm como objeto de trabalho língua e as linguagens agrega elementos que integram o ato pedagógico à vida. Analisar um texto, seja ele oral, escrito, imagético, musical, seja ele uma confluência de tantos signos, de múltiplas semioses se torna significativo somente se esse ato estiver impregnado do que é vivo no dia a dia desses sujeitos.

Essa visão é comungada por Machado, que, a partir de Bakhtin, procura refletir sobre a questão do texto. Ela sintetiza: Para Bakhtin texto é todo sistema de signos cuja coerência e unidade se deve à capacidade de compreensão do homem na sua vida comunicativa e expressiva. O texto não é uma coisa sem voz; é, sobretudo, ato humano, ‘diz respeito a toda produção cultural fundada na linguagem (e para Bakhtin não há produção cultural fora da linguagem) (MACHADO, 1996, p. 92).

O que propusemos – e foi aceito entusiasticamente pelos autores que aqui estão presentes – foi o exercício dessa reflexão e dessa prática de ir construindo compreensões e visões não sobre o que seria – erroneamente – considerado como “o texto em si”, mas como uma constituição da experiência que nos faz espectadores/leitores, sujeitos constituídos pelo próprio ato de leitura nesse contexto multissemiótico.

Esse esforço representa uma tripla construção: a) um exercício de pesquisa junto aos nossos orientandos e participantes de nossos grupos de pesquisa; b) uma sistematização e um amadurecimento das atividades que realizamos no âmbito do Pibid; e c) uma trajetória – ainda pouco comum para os estudantes de graduação – de construção da escrita acadêmica, da reflexão sobre a própria prática que essa atividade proporciona de maneira mais intensa e de produção conjunta com alunos de pós- graduação e docentespesquisadores.

Assim, expomos a descrição resumida de cada capítulo que compõe o nosso livro: No capítulo 1, intitulado Videoanimação Piper: uma proposta de leitura à luz da Gramática do Design Visual, os autores Helena Maria Ferreira, Pedro Henrique Cardoso e Bruno Stefano Furtado apresentam uma proposta de leitura de uma videoanimação, enfatizando a diversidade de uso de gêneros discursivos presentes no contexto social e educacional, e destacando a relevância do trabalho com textos multissemióticos para a formação de cidadãos críticos, tal como preveem as diretrizes propostas pelos documentos oficiais. Os autores discorrem sobre o trabalho com a videoanimação em sala de aula, delineiam os pressupostos basilares da Gramática do Design Visual (GDV) e apresentam uma proposta de leitura da videoanimação Piper, com vistas a propiciar aos professores e demais leitores uma discussão sobre as diferentes perspectivas de estudo das produções audiovisuais.

No capítulo 2, que tem por título Videoanimação The blue & the beyond: o trabalho com recursos imagéticos em sala de aula, as autoras Jaciluz Dias, Hellen Teixeira Silva e Mirella Rosa Silveira demonstram, por meio de uma análise semiótica, como uma videoanimação pode ser utilizada na educação, a fim de contribuir para a inserção e utilização desse tipo de produção no trabalho com a leitura na educação básica. A partir dos pressupostos da Gramática do Design Visual (GDV), as autoras elaboraram uma proposta de leitura da videoanimação em tela. O capítulo apresenta uma reflexão acerca da importância do trabalho com materiais audiovisuais, discorre sobre os pressupostos básicos da GDV e socializa uma análise para a videoanimação, demonstrando como a produção selecionada pode ser trabalhada em sala de aula.

No capítulo 3, cujo título é Videoanimação Man: uma proposta de leitura, os autores Helena Maria Ferreira, Yago Marshal A. Leandro e Geanne Santos Cabral Coe enfatizam a relevância de uma pedagogia da leitura que abarque a organização dos textos que circulam nas novas mídias. Nesse sentido, os autores demonstram que abordar pedagogicamente uma produção audiovisual implica considerar o gênero discursivo, o enredo, os recursos (planos, enquadramentos, iluminação, cores, música, efeitos especiais), o projeto enunciativo dos produtores, os modos de construção dos personagens, o lugar social dos sujeitos-leitores, das questões explícitas e implícitas – o que mostra, o que sugere, o que omite. Além disso, é relevante problematizar o processo de textualização das videoanimações, uma vez que os recursos linguísticos e semióticos se apresentam de modo articulado, o que permite perceber as relações envidadas para a construção dos sentidos, seja na dimensão da coesão textual, seja na dimensão da coerência, evidenciando que as escolhas não são neutras.

O capítulo 4, Videoanimação Querida Alice: uma análise sobre audiovisual e educação, escrito por Jaciluz Dias, Marta Cristina da Silva, Maria Alice Aparecida Assis e Tânia Oliveira Terra, analisa as diversas semioses presentes na videoanimação selecionada e discute sobre os processos de produção de sentido construídos na relação entre os diferentes recursos semióticos que constituem o texto/discurso da produção. A análise socializada, fundamentada nos pressupostos teórico-metodológicos da Gramática do Design Visual (GDV), destaca que o encaminhamento das práticas educativas com a leitura em sala de aula deve contemplar os efeitos de sentidos decorrentes das escolhas de diferentes elementos que compõem as cenas de uma produção cinematográfica, no caso analisado, de uma videoanimação, o que favorece o estudo dos mecanismos linguísticos e semióticos, mas também um enfrentamento das questões discursivas, tão necessárias para a formação de leitores profícuos.

No capítulo 5, intitulado Videoanimação La lunna: palavra na lua e uma perspectiva de aprendizagem, os autores Raphael Sales Soares, Marco Antonio Villarta-Neder e Juliana da Silva Lopes Kaloczi propõem uma provocação sobre as possibilidades educacionais das videoanimações para a construção de processos de ensino e de aprendizagem que, efetivamente, impliquem os sujeitos como protagonistas da própria trajetória de aprendizagem.

A partir da exploração dos componentes da linguagem presentes na videoanimação La Luna e da reflexão sobre como a palavra, em uma perspectiva bakhtiniana, impacta na relação de ensino/aprendizagem, os autores analisam o papel da palavra (linguagem) como elemento central na relação dialógica entre os sujeitos no processo de aprendizagem, o que culmina na construção crítica do conhecimento.

O capítulo 6, denominado Videoanimação Alike: pensando o gênero discursivo videoanimação em sala de aula, produzido por Natália Rodrigues Silva do Nascimento, Aline Teodoro e Jovana da Paixão César, elege como objeto de estudo a videoanimação Alike, que problematiza as transformações sociais e culturais ocorridas a partir dos avanços tecnológicos e digitais. A partir de um viés dialógico, interacionista e alteritário, o capítulo discute a formação de leitores proficientes e de profissionais docentes, cujas práticas se aproximem do trabalho com os gêneros que são produzidos e que circulam socialmente na atualidade. As autoras sinalizam para a relevância de uma inserção de gêneros, que conjugam semioses múltiplas em sua composição, para a formação de leitores proficientes e críticos, uma vez que tais gêneros se aproximam das práticas sociais presentes na sociedade tecnológica e digital em que estamos inseridos. Assim, videoanimações (curtas) permitem uma análise mais crítica dos recursos/modos semióticos, uma vez que propiciam um movimento reflexivo, uma posição ativa frente ao texto, para se compreender, tanto cada semiose isolada quanto o todo formado por elas, além de trazer para a escola gêneros mais acessíveis e presentes no cotidiano dos alunos, fazendo com que os métodos formais e canônicos percam espaço para métodos plurais e mais abertos.

No capítulo 7, que tem por título Videoanimação Mouse for sale: uma análise sob a perspectiva do ensino de língua portuguesa, os autores Marco Antonio Villarta Neder, Silas Custodio e Camila Lessa do Carmo destacam que um dos desafios do trabalho com linguagens em sala de aula é nunca perder de vista a relação que essas têm, constitutivamente, com a vida. Nesse contexto, o trabalho com gêneros discursivos como a videoanimação pode promover esse encontro com a realidade de espectadores dos sujeitos envolvidos, sejam eles os estudantes, sejam os professores. Nesse capítulo, foi analisada a videoanimação Mouse for sale, produzida pelos estúdios norte-americanos Disney.

O objetivo foi discutir como os personagens da animação ressignificam suas identidades a partir de uma percepção intersubjetiva da relação com os outros personagens. Os referenciais teóricos utilizados foram o conceito de identidade e o de enunciado/enunciação, do Círculo de Bakhtin, Medviédev e Volóchinov. A partir deles, foram discutidas implicações pedagógicas na utilização de uma videoanimação como essa em aulas de Língua Portuguesa na Educação Básica.

O capítulo 8, identificado pelo título Videoanimação Vida Maria: a constituição do sujeito feminino, de autoria de Gislaine Aparecida Teixeira e Millena Carvalho Bastos, tem a análise proposta pautada no conceito de sujeito, proposto e problematizado por Mikhail Bakhtin e o Círculo. Assim, a reflexão abarca a questão da constituição do sujeito feminino e direciona-se para possíveis relações de alteridade produzidas em situações de sala de aula, concebidas como uma unidade do acontecimento. A partir do trabalho com o texto multissemiótico, isto é, o texto que possui em sua composição semioses outras para além do campo da verbal, é possível construir espaços e tempos escolares mais dinâmicos e interativos. Por fim, constatou-se, também, a importância de se refletir sobre a formação docente diante da necessidade de apreensão de novas habilidades e práticas na relação professoraluno.

O capítulo 9, intitulado Videoanimação Reflexion: a construção da identidade feminina a partir da problemática do padrão de beleza, produzido por Marco Antonio Villarta-Neder, Taísa Rita Ragi e Kleissiely de Castro, problematiza o fato de as videoanimações serem tomadas, recorrentemente, como mero entretenimento. Pensar na formação escolar dos alunos pressupõe, entre outras questões, garantir que estejam aptos a promover a integração de várias linguagens nos diferentes contextos sociais. Os autores fazem uma proposta de análise da videoanimação selecionada em uma perspectiva dialógica, que representa um desafio teórico para muitos professores de escolas de educação básica. A constituição de sujeitos-leitores deve atender às necessidades contemporâneas, por meio de ações pedagógicas que contemplem essa condição multissemiótica dos gêneros discursivos com que convivem. É a partir do encontro entre sujeitos que as aulas de Língua Portuguesa poderão contribuir para a formação de leitores que estabeleçam um diálogo com as condições concretas nas quais os alunos se encontram, enquanto sujeitos do/no mundo, constituindo-se na/pela linguagem.

O capítulo 10, denominado Videoanimação Apego y ego: uma desconstrução do perfil feminino difundido pela indústria da beleza, de autoria de Cecília Moreira, Guilherme Melo e Jaciluz Dias, apresenta e discute a importância da utilização de materiais audiovisuais na educação, graças ao seu caráter inovador e fundamental para a formação de leitores cidadãos. Além disso, busca-se, também, problematizar as concepções de beleza culturalmente construídas para o universo feminino, a partir da análise da videoanimação selecionada. Portanto, as discussões propostas incidem sobre uma faceta obscura da indústria da beleza e sobre os padrões estéticos disseminados na sociedade, o que demanda uma desconstrução dos discursos normativos, com vistas a favorecer não somente uma maior qualidade de vida, como também um pertencimento aos grupos sociais, de forma menos excludente. Os autores ressaltam a relevância do uso dos textos multissemióticos na sala de aula, que provocam discussões sobre os muitos sentidos possíveis da linguagem não verbal (e das relações desta com a linguagem verbal), propiciando desenvolver uma leitura crítica sobre a realidade, por parte dos discentes, mas, também, dos docentes.

No capítulo 11, intitulado Videoanimação Sunshine: discussões sobre relacionamentos abusivos, as autoras Isabela Vieira Lima, Gabriella Marques Siquara Silva e Giuliane Aparecida Petronilho apresentam considerações sobre o trabalho com os textos audiovisuais em ambiente escolar. A partir de uma proposta de leitura da videoanimação Sunshine, são problematizadas questões que estão presentes no cotidiano social, tais como: masculinidade tóxica, relacionamentos abusivos e machismo.

Além disso, é possível discutir sobre os recursos semióticos, como são escolhidos e combinados para a construção do projeto de dizer por parte dos produtores e como são interpretados por parte dos sujeitos-espectadores. Assim, o trabalho com a videoanimação possibilita a construção da interação entre dos diferentes sujeitos que compõem as cenas enunciativas. Analisar como se efetivam os processos de produção e de recepção dos textos se constitui como uma estratégia profícua para a formação de sujeitos-leitores críticos.

O capítulo 12, que tem por título Videoanimação Scarlett: novas cores, novos caminhos e um aprendizado significativo, de autoria de Dalva de Souza Lobo, Janice Rosário e Jean Oliveira, busca refletir sobre as possibilidades de leitura oferecidas pelos diferentes signos que se materializam em forma de textos verbais e/ou não verbais. Os autores destacam que a análise e a interpretação dos textos, independentemente do suporte que os acolhe e das semioses que os constituem, implica os diferentes contextos que circunscrevem os sujeitos em suas práticas sociais. O uso da videoanimação, enquanto estratégia didática, potencializa a prática  pedagógica e as relações de ensino e de aprendizagem. Todavia, não se trata somente do aprendizado formal promovido pela escola, pois a percepção e compreensão se estendem para além desta, na medida em que provocam outras leituras de mundo e dos diferentes textos, sem os quais os atos de ensinar e aprender se esvaziariam dos sentidos que devem norteá-los. A leitura na perspectiva dialógica e letrada é fundamental para a formação estética dos sujeitos, aqui compreendida em sua dimensão social, cultural e histórica.

O capítulo 13, cujo título é Videoanimação El empleo: reinventando a leitura no espaço escolar, produzido por Ernani Augusto de Souza Junior, Bianca de Souza Gomes e Ivan Lucas da Silva, destaca o compromisso ético da escola de assumir-se como responsável pela formação de leitores críticos que possam interpretar, com proficiência, os diferentes recursos semióticos que constituem os textos que circulam na sociedade da informação. Nesse contexto, os autores apresentam uma proposta de leitura da videoanimação El Empleo que contempla aspectos presentes em textos multissemióticos, tais como: enredo, trilha sonora e os efeitos de sentidos, demonstração de sentimentos, metáforas visuais e enquadramentos, que são mecanismos indiciadores de sentido e orientam a interpretação. Os autores apresentam uma reflexão teórica e metodológica sobre o trabalho com a leitura de textos audiovisuais em sala de aula e, de modo especial, com a leitura de videoanimações, o que pode favorecer o acesso dos alunos à cultura, à reflexão crítica, a espaços de imaginação/criação, de ressignificação de valores, enfim, para se realizar um trabalho de produção de sentidos em um contexto histórico e coletivo, que possibilite a ampliação da criticidade e de posturas éticas.

No capítulo 14, intitulado Videoanimação Jacaré ou tronco?: os processos de textualização em texto multissemiótico, as autoras Isis Brito Alves, Jaqueline Araújo da Silva e Francine de Paulo Martins Lima constroem uma reflexão acerca dos processos de sentidos dos textos, em uma perspectiva dos mecanismos de textualização e de circulação/recepção dos discursos. Os processos de textualização são construídos de maneira interativa, levando em conta não somente o enunciado, mas os aspectos da obra como o todo, tendo em vista que o gênero em questão coloca o espectador como criador principal do sentido, o que implica considerar os conhecimentos de/sobre o mundo do sujeito-espectador, representando aspectos interessantes para o tratamento da leitura em sala de aula. Com vistas a sistematizar as unidades de sentidos, as autoras propõem um trabalho com provérbios, o que permite explorar os enunciados para além de sua materialidade textual. Além da exploração das multissemioses, as videoanimações podem favorecer a concretização de práticas educativas notadamente mais interativas e, consequentemente, formar sujeitos mais críticos e reflexivos.

No capítulo 15, que tem por título Videoanimação Calango Lengo: o uso de videoanimações em sala de aula como motivadoras de reflexões sobre cultura, os autores Ernani Augusto de Souza Junior, Ana Carolina Gama Gouveia e Letícia Arrabal Bonini da Silva apresentam uma proposta de leitura do gênero videoanimação em sala de aula como uma alternativa ao modo de ensino tradicional, por meio da análise de uma videoanimação. Apesar da diversidade de recursos presentes na produção selecionada, os autores destacam três aspectos na análise: a trilha sonora, o cenário (a partir dos elementos semióticos e técnicos) e a religiosidade (a partir de eixos temáticos). A partir do trabalho empreendido, foi possível constatar as potencialidades do gênero videoanimação para desmistificar o uso de obras audiovisuais como um recurso estritamente relacionado ao entretenimento, uma vez que elas proporcionam estratégias didáticas que articulam diferentes linguagens e problematizam a diversidade cultural. Além disso, essa abordagem permite uma aproximação entre professor e aluno, uma mobilização do interesse pela aprendizagem por parte dos estudantes, favorecendo uma educação emancipatória e crítica.

O capítulo 16, denominado Videoanimación Ley del retorno: constribuciones que ofrece el video para la dinámica docente y La enseñanza de lenguas adicionales, de autoria de Lorena Del Carmen Esparza Paillao e Tania Regina de Souza Romero, destaca as contribuições do uso de videoanimações para o ensino de línguas adicionais em sala de aula e apresenta uma proposta de trabalho com uma produção animada como exemplo de outras formas de interação nos processos de ensino e de aprendizagem.

As autoras destacam a relevância da inserção de tecnologias nas práticas educativas e a necessidade de metodologias que possam contribuir para o aperfeiçoamento de habilidades de usos da língua estudada. Voltado para a formação de professores, o capítulo atesta as potencialidades das videoanimações para a promoção de aprendizagens mais efetivas, viabilizando novos modos de ensinar, bem como o acesso a outros mundos sociais, de forma a favorecer a compreensão das práticas linguísticas e das dimensões culturais que compõem o processo de ensino de uma língua adicional.

O capítulo 17, com o título Videoanimação Are you lost in the world like me?: o uso (in)devido da tecnologia, foi produzido por Elivan Aparecida Ribeiro, Christian Antônio de Souza Sales e Thauane Teodoro Gonçalves Santos e demonstra a relevância de uma leitura mais meticulosa dos textos multissemióticos. O capítulo ilustra as potencialidades das videoanimações para a implementação de práticas pedagógicas de ensino e de aprendizado, pautadas em ambientes mais interativos, dinâmicos e de entretenimento, mas com criticidade. Esse tipo de recurso pode viabilizar a formação de alunos críticos e reflexivos, que possam se atentar às condições de produção de sentido que lhes são oferecidas, não apenas pelo texto verbal, mas também pelo audiovisual. A partir dessa sintaxe audiovisual, os processos de produção de sentidos são ampliados, de modo a congregar entretenimento, criticidade, criatividade e formação cidadã, uma vez que as videoanimações problematizam temáticas sociais e interpelam um posicionamento crítico, com uma dose de humor.

O capítulo 18, intitulado por Videoanimação Happiness: uma abordagem com o texto multissemiótico em sala de aula, de autoria de Gislaine Aparecida Teixeira, Gabriel Vicente Alves Silva e Lorena Lopes Moraes, apresenta uma análise multissemiótica, em que se buscou refletir sobre a utilização da videoanimação em sala de aula, enfocando as estratégias de constituição dos sujeitos, a partir da inserção da linguagem multimodal no ensino.

Problematizar a leitura das várias semioses em sala de aula, como no caso da videoanimação, é priorizar um rompimento com uma leitura que se configure de forma simplista/superficial dos enunciados e que se relaciona diretamente com o dito e com o não dito. Afinal, mais que uma relação entre texto em sua materialidade e aluno, há uma relação constitutiva entre sujeitos, entre dizeres, entre sentidos. Assim, perceber as estratégias utilizadas na constituição da videoanimação proporcionam interpretações que não ficarão restritas ao contexto da sala da sala de aula. Pensar sobre essas questões é abrir-se para novas práticas sociais, é atentar-se a um ensino que priorize a constituição do sujeito-aluno e, consequentemente, dos sujeitos em inter-relação.

O capítulo 19, cujo título é Videoanimação A lhama e a cerca elétrica: a relevância do audiovisual como estratégia de ensino na sala de aula, foi produzido por Elivan Aparecida Ribeiro, Melissa de Carvalho Pinto e Theodoro Gomes Azevedo e apresenta uma discussão sobre conceitos basilares que permitem a compreensão do universo em que se circunscrevem os textos multissemióticos. A análise dos múltiplos recursos semióticos permite a compreensão das partes que compõem o todo, bem como a construção de possibilidades de interpretação dos projetos de dizer constitutivos dos textos. Assim, ao se trabalhar com videoanimação, que é um gênero que reúne múltiplas semioses, como áudio, imagens, movimentos, entre outros, os alunos tendem a ser mais instigados e ampliam seus modos de interpretar um texto. A videoanimação constitui-se de uma multiplicidade de linguagens, que unem textos verbal e não verbal, motivando a construção de sentidos de modo mais ativo e mais reflexivo.

O capítulo 20, intitulado Videoanimação Ian – inspired by a true story: possibilidades para o trabalho com a inclusão social e digital, de autoria de Amanda Jackeline Santos da Silva, Teciene Cássia de Souza, Maria Luiza de Paula e Ana Júlia Aparecida Cruz, apresenta uma discussão acerca das potencialidades das videoanimações para a abordagem da temática da inclusão, seja na perspectiva da inclusão social, seja na perspectiva da inclusão digital, de modo mais específico. As autoras discutem a relevância de a inclusão social ser concebida a partir do conceito de diferenças, não das deficiências. Além disso, explicitam que o conceito de inclusão digital deve contemplar as dimensões de usos das múltiplas linguagens. Para complementar a discussão, as autoras apresentam uma proposta de leitura da videoanimação Ian, que ilustra uma situação de exclusão/inclusão e que explora diferentes semioses para a construção do projeto de dizer.

No capítulo 21, nomeado Videoanimações em sala de aula: relato de experiência de supervisores do Pibid, os professores Aleques Mateus, Suely Mendes Andrade Monteiro, Silmara Aparecida dos Santos e Nilva Alves Borges Januário produzem um relato reflexivo sobre as experiências de leitura e de utilização das videoanimações em sala de aula. Além de apontar a carência de cursos de formação sobre o uso desse tipo de gênero discursivo, os autores sobrelevam a necessidade de busca constante de inovação de metodologias de ensino e de práticas educativas mais interativas. A partir do relato produzido, foi possível compreender que o trabalho com as videoanimações amplia o interesse pela leitura e pela discussão por parte dos alunos, possibilita abordar questões sociais a partir de um contexto, favorece o pensamento crítico, incita uma provocação para a formação humana, permite explorar as habilidades requeridas pela BNCC de modo mais sistematizado e com resultados mais profícuos. O trabalho com esse gênero suscitou enunciados e posicionamentos interessantes, que propiciaram discussões acerca das perspectivas dos alunos e dos professores, viabilizando espaços para o trabalho com a leitura em uma perspectiva de produção de sentidos na/pela interação, o que, além de favorecer a formação crítica dos alunos-sujeitos leitores, contribui, também, para a formação reflexiva dos sujeitosprofessores. A partir da posição que assumimos como participantes do Projeto Pibid/UFLA/Capes – Português, esperamos que a leitura desses textos seja um convite a uma réplica que os enunciados sempre suscitam, seja em novas compreensões, seja na crença de que é possível constituir-se um espaço rico, diverso e plural de formação de sujeitos, alunos, professores, pesquisadores, cidadãos.

Cada ato de linguagem, cada compreensão e cada fazer nos engajam no mundo do outro, condição para que (re)construamos continuamente o nosso e o dele. Na nossa concepção, sociedade e escola são instâncias – com todos os seus desafios – para esse encontro e esse diálogo.

Destacamos, ainda, que as imagens utilizadas neste livro foram retiradas de videoanimações produzidas por produtores diversos, citados no corpo de cada capítulo. Ressaltamos que a utilização das imagens teve, exclusivamente, objetivos educacionais, sem fins lucrativos e pode enquadrar-se na política de usos aceitáveis das mídias para a formação cidadã.

Boa leitura!

Referências

LÉVY, Pierre. Tecnologias intelectuais e os modos de conhecer: nós somos o texto. Conferência proferida 2009. Disponível em: https://bit.ly/2Yin4kJ. Acesso em: 19 jun. 2019.

MACHADO, Irene. O texto como enunciação. A abordagem de Mikhail Bakhtin. Língua e Literatura, n. 22, p. 89-105, 1996.

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